17 abril, 2010
Só para continuar
- Eles vão se casar, sim, com a minha benção. E serão felizes como eu fui.
- E certamente irão se separar, como você se separou.
- Mas eu só me separei pra continuar sendo feliz.
Viver a Vida, novela das oito, no ar pela Globo.
27 março, 2010
Os Nardoni e o Idiota
Não havia nenhuma prova física de que os Nardoni foram os responsáveis pela morte de Isabella. Havia indícios (muitos indícios, reconheço) que apontavam para isso. Mas nenhuma prova.
Entretanto, muitos por aí afirmam ter certeza absoluta da culpa do casal. “Eles têm cara de assassinos”, dizem, como se os matadores tivessem algum traço no rosto, uma cicatriz ou uma pinta que denunciasse suas intenções. Ou então afirmam que “eles não demonstram nenhum sentimento”, como se fosse fazer alguma diferença a dor estar estampada ou não no rosto.
A morte de Isabella Nardoni. Um fato jogado no ar e cada um acredita no que quer, com a intensidade que deseja.
E veja bem, não estou defendo o casal. Somente não tenho tanta certeza assim das coisas e não tenho a habilidade de reconhecer assassinos apenas olhando no rosto ou então analisando suas emoções, logo, prefiro ficar num terreno mais racional, de análise, de confrontação de informações, de perguntas.
Tá. Se eles foram os assassinos, por quê mataram? O que havia feito Isabella de tão ruim que bater nela e sufocá-la não foi suficiente? Por quê o trabalho de pendurá-la na janela e soltar? E se realmente havia outra pessoa no apartamento? E se a pessoa fez tudo o que fez em 3 minutos? Talvez um assassino profissional contratado por um inimigo de Nardoni, altamente pago para fazer o trabalho sujo, sem deixar vestígios.
Meio conspirativo? Também acho.
Enfim. Não gosto de acreditar logo de cara que pais espancam suas filhas e as jogam pela janela, sem motivo aparente. Eu sou assim meio idiota mesmo.
E que Deus me conserve um idiota até o fim dos meus dias. Porque como idiota, sou feliz.
24 março, 2010
Boa gente
Eu assisto Big Brother. Não sou fanático. Às vezes esqueço qual o dia da eliminação e se alguém me perguntar quando é a prova do líder ou a do anjo, eu não me lembro.
Mas me pergunte quem é o enganador, quem é a golpista, a inocente e a falsa e minha resposta está na ponta da língua. É o drama humano do programa que me atrai. A raiva, o que me motiva a assistir. E como cada um tem seus motivos pra fazer coisas vãs e inúteis, eu tenho meu motivo pra assistir BBB: vingança.
Eu assisto BBB pra satisfazer a minha vontade de meter a mão-na-cara no marido da amiga da minha tia, que terminou com ela na noite de natal, fez sexo com ela depois e ainda terminou dizendo: “a outra faz melhor”. Ou então pra cuspir minha indignação pela vizinha que tem um marido que lava, passa, cozinha e ainda o chama de escravinho.
Então quando cai a máscara da fofoqueira no programa, é o marido traste se dando mal por ter abandonado esposa e filho e quando a falsidade de uma participante é percebida ao vivo, é o marido exigindo não ser chamado de escravo. E a eliminação…é o cheque-mate, é a explosão, é o “bem feito, seu filho de uma égua”. Punição.
Eu tento corrigir o mundo através da tela.
Como se com isso eu pudesse trazer um pouco de humanidade às criaturas medíocres à minha volta ou talvez com o objetivo de absorver um pouco dessa humanidade e me destoar dessa gentalha, me sentindo gente. Boa gente.
Ultimamente tem sido um fracasso. Os maus se dão bem, os bons se afundam, as desventuras na tela longinqua tão próximas do real. Eu até entendo. A fofoqueira do programa é fofoqueira pra mim, mas é a heróina de outro. A minha verdade versus a verdade do outro. E aí todos votam e na eliminação prevalece a verdade da maioria, que não é a minha verdade, nem a verdade do outro: é uma terceira, díspar, pairando no ar.
E minha justiça? Minha punição? Nada. O marido deixa a esposa de novo, depois de transar com ela, na noite de natal, afirmando que o sexo é péssimo. O outro continua lavando e passando e cozinhando e ri do apelido de “escravinho”.
Eu sigo sentado, o pé numa tala, em frente à tela apagada.
Imóvel, impotente.
O mundo inteiro pra consertar.
29 novembro, 2009
12 novembro, 2009
Forte
Essa foi a notícia que recebi quando cheguei em casa, vindo do trabalho. Fiz algumas perguntas vagas, como se a minha displicência fosse me afastar de algum modo da consciência do fato. Foi em vão. Ficamos imersos na morte do cão.
Aí chegou o amigo do meu irmão, chamado exclusivamente para ajudar a carregar o cadáver do cachorro. Algumas introduções, algumas piadas, o convite. A resposta? "Desculpa, não vou por a mão nele não".
Meu irmão foi até a casa do cão com uma lâmpada, para ajudar a iluminar o local. Voltou logo. "Não vai dar, não vou conseguir, é muito triste" voltou ele dizendo, derrotado.
De repente, eu cansei. "Vamos lá então", disse eu. (Seja forte, seja forte...)
Na casa do cão, quando a luz quebrou a escuridao, lá estava ele. Era um Pit-bull, cara ameaçadora, dentes afiados, desconfiança plena de tudo e de todos. Mas já não era nada disso. Os olhos opacos eram meigos como nunca tinham sido em vida; as patas encolhidas, a boca aberta, os olhos apreciando infinitamente o asfalto.
(Seja forte, seja forte).
Dei um passo à frente. Me animei com a perspectiva de retirá-lo dali, como se fosse uma homenagem póstuma, uma aproximação, ao cão que por toda a vida tinha afastado todos de si. Cobri o cão com um lençol e a partir daí o incomodo melhorou. A dor diminuiu. Até agora não sei bem ao certo se fiz isso pra não ver o cão ou se o fiz para não ME ver no cão. Esse é o grande problema com a morte: há uma empatia involuntária.
Continuei sendo forte e comecei a movê-lo. Meu irmão saiu do choque e me ajudou. Pusemos um saco de lixo na cabeça, em direção ao rabo. E depois outro, no rabo em direção à cabeça, para selar o corpo. Olhei para o corpo. O cão no saco preto. Um dia todos seremos isso: uma massa rígida dentro de um saco preto.
Fui forte, comemorei. Fui forte. Ajudei meu irmão a levar o cão morto pra um veterinário, onde seria incinerado. Fui forte.
Cheguei em casa e fui logo dormir. Com a cabeça no travesseiro, me ocorreu que eu não havia fechado os olhos do cão. Sepultado de olhos abertos.
Seja forte, seja forte. Não consegui.
Lembrando de olhos eternamente abertos, o peso mórbido da morte me atingindo, fiquei com meus olhos abertos até tarde da noite.
Meu travesseiro ficou lavado de lágrimas.
09 novembro, 2009
Retornando com um Tapa de Realidade
“Eu sou um brinquedo caro e você, uma criança pobre”.
- nick no MSN.